A ruína do tempo – o abandono de lugares e pessoas

Uma reflexão da fotografia sobre o abandono de lugares e pessoas.

Há muito que os brasileiros se indignam e se entristecem com o abandono envolvendo a saúde pública, os hospitais, as escolas e os presídios. Mas entre reclamar e encarar, literalmente, essa realidade de perto, há uma distância enorme.

Ao olhar para prédios em ruínas ou para pessoas esquecidas e desvalidas, nos deparamos com nossa própria mortalidade, com a incapacidade de cuidar do mundo ao redor, com a impotência diante da passagem do tempo. Neste sentido, a fotografia, como registro físico de acontecimentos, pessoas e lugares, tem uma função apaziguadora, ao nos iludir com a fixação mágica de formas, luzes e sombras.

O fotógrafo norte-americano Matthew Christopher é autor de uma série fotográfica e de um site chamado “Abandoned America, an autopsy of the American Dream” (América Abandonada, uma autópsia do Sonho Americano).

A série foi concebida para capturar a beleza hipnotizante dos muitos prédios abandonados que pontilham a paisagem dos Estados Unidos. É uma tentativa de manter viva a história e a essência de locais negligenciados, antes deles desaparecerem para sempre.  É também, “um elogio aos estilos de vida perdidos, aquilo que representam, uma demonstração do seu lado emocional, espiritual e a sua relevância metafórica para nossas vidas cotidianas”.

Foto feita em hotel não identificado, Matthew Christopher

Foto feita em hotel não identificado, Matthew Christopher

No meio de toda essa deterioração existe beleza: nas paredes descascadas, no entulho que se equilibra de forma curiosa, nas nuances surpreendentes que surgem sobre as superfícies. Além disso, ao observar as imagens, uma série de questões sociais, teológicas e filosóficas se apresentam. O que teria acontecido ali? Quem eram os frequentadores daquele espaço? Como teria sido seu uso? Por que ele foi abandonado?

Ao olhar para as ruínas, nos deparamos também com nosso próprio processo de lidar com as perdas, com o luto e com as memórias. Percebemos que tudo ao nosso redor caminha para o esquecimento, para a erosão pela passagem do tempo. Nas palavras de Christopher, “Talvez o fascínio que sentimos ao ver as criações alheias serem engolidas pela ação do tempo, seja uma maneira de lidar com o fato de que seremos engolidos também”.

Foto feita na St. Katherine Academy por Matthew Christopher

Foto feita na St. Katherine Academy por Matthew Christopher

“O processo de degradação pode ser considerado inevitável, mas fala de um certo descuido e desperdício da nossa parte por não reconhecer e explorar esses fragmentos juntos, enquanto ainda podemos. Há também uma responsabilidade que todos nós compartilhamos: a de enfrentar os horrores que alguns desses lugares foram testemunhas. Enquanto ensinamos repetidamente certas atrocidades históricas, como o holocausto (e com razão), a maioria das pessoas é completamente ignorante do fato que asilos e instituições em nosso próprio solo chegaram perto de ser tão horríveis e letais para os internos. Da mesma forma, todos os complexos fabris que são demolidos apagam uma parte valiosa do patrimônio da comunidade que a ajudou a criar, e vai-se para sempre a oportunidade de compreender as condições de trabalho, por vezes brutais, as lutas de classes, e a devastação econômica criada por seu fechamento”.

Através de exibições em galerias, apresentações públicas e artigos publicados, Christopher pretende que que as pessoas vejam os lugares abandonados  não como monstruosidades, mas sim como parte da memória histórica e afetiva dos homens.

Homens esquecidos

A loucura sempre foi um tema subjacente aos trabalhos de Claudio Edinger, mesmo que de forma inconsciente.  Seu primeiro ensaio fotográfico, ainda nos anos 1970, foi sobre o Chelsea Hotel, lendário reduto novaiorquino que hospedava artistas, performers, prostitutas, e toda sorte de trangressores e malucos do underground.

Entre 1989 e 1990, motivado pela doença de uma avó muito querida que sofria de Alzheimer, Edinger decidiu investigar a loucura extrema, o território perigoso e fascinante do inconsciente.

Loucura, 1989, Cláudio Edinger

Loucura, 1989, Cláudio Edinger

Passou algumas semanas retratando os doentes metais no Hospital Psiquiátrico do Juqueri, em Franco da Rocha, região metropolitana de São Paulo, tentando entender a loucura. As condições  do local eram comparáveis às de um campo de concentração. Os internos vagavam por pátios de cimento, despidos, imundos, à mercê das intempéries, muitos deles esquecidos pelos familiares. Se, por uma lado, isso tornou o ensaio polêmico, por outro, acabou chamando a atenção para o abandono dos doentes.

“Nas fotos, a tensão é uma corrente subterrânea por trás da aparente calma. O que funciona nelas é esse equilíbrio momentâneo entre a calma e a tensão. Está no olhar, nos gestos, na linguagem do corpo”, disse Edinger, em entrevista para o jornal Folha de São Paulo.

Loucura, 1989, Cláudio Edinger

Loucura, 1989, Cláudio Edinger

As imagens são fortes e causam desconforto. Os personagens são literalmente trazidos à luz, aparecem destacados pelo flash usado à luz do dia. Alguns sorriem para a câmera, outros estão alheios, esquecidos e encerrados em seu próprio mundo.

Fonte: https://www.jornaldafotografia.com.br/artigos/a-ruina-do-tempo-o-abandono-de-lugares-e-pessoas/

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